Que Falta Me Faz Um Sorriso

Que falta me faz deixar esse sorriso estampado na cara e me comunicar livremente. Vocês também tem essa sensação?
Com o uso de máscaras preciso me esforçar muito mais para mostrar quem eu sou. Preciso de novas estratégias para ter uma comunicação clara e eficiente com meus novos pacientes.

Nós acabamos de nos conhecer e ainda não nos conhecemos por inteiro, escondemos nossos sorrisos, parte de nossas expressões faciais e a nossa voz verdadeira, que é única, como que uma impressão digital. Quando minha voz se altera, perco parte importante da minha identidade. Se desejo formar bons vínculos preciso lançar mão de uma voz mais forte, carregar nas expressões faciais, buscar o tempo todo o contato de olhos e ter um olhar muito mais firme e pontual.

Como fonoaudióloga, especialista em audiologia clínica e reabilitação auditiva, meus desafios hoje são muito maiores. Preciso cuidar muito mais da minha voz e criar novas estratégias para estabelecer um boa comunicação, para cuidar da audição deles. Preciso fazer melhor a minha parte!

Ao mesmo tempo tenho a percepção de que o valor e os resultados de todo esse trabalho essencialmente fonoaudiológico, que evidencia como nunca, o ponto de intersecção entre ouvir e falar, entre a voz e a audição, tornaram-se muito mais perceptíveis às pessoas em geral.
A falta de audição é muito mais “visível” aos olhos de quem tem perda auditiva de grau mínimo a moderado e de quem convive com quem não escuta bem.

A comunicação verbal é hoje muito mais valorizada e a audição tornou-se evidentemente essencial para a vida.

O uso de máscaras e o distanciamento nos aproximou! Estamos mais perto das pessoas com algum grau de surdez e de seus familiares.
A máscara permitiu às pessoas, de certa forma, um melhor entendimento da perda auditiva e percepção de como se sente a pessoa que não escuta bem, trazendo mais empatia para essa causa.

Hoje eu sinto meu trabalho muito mais abrangente e valorizado.

Tenho notado também dia a dia uma mudança no perfil dos usuários de aparelhos auditivos. Atualmente recebo pacientes mais jovens, recebo também pessoas que levariam muitos anos para buscar ajuda para ouvir melhor e que se deram conta de como ouvir é fundamental para as relações. Cuido mais das famílias, que se integram e interagem melhor dentro do processo de reabilitação auditiva, dispondo-se a ajudar ativamente nesse processo.

O uso de máscaras é indiscutivelmente fundamental para esse momento, uma nova “indumentária”, um novo costume, que veio para ficar por algum tempo e precisa ser melhor aceito por nós. Ao mesmo tempo que máscara cria uma barreira necessária ao coronavírus, cria também uma barreira para o som e para a comunicação, atrapalhando muito mais a vida das pessoas que não escutam bem. Tira a nossa boca do seu campo visual, e, com isso, esconde suas maiores referências na comunicação. Priva a pessoa com perda de audição de fazer a leitura orofacial, de usar pistas sonoras com sua audição residual, abafa o som e pode reduzi-lo entre 2dB até 12dB o som da voz, impede-a de perceber os traços supra segmentais da fala, através das expressões faciais do interlocutor, complicando muito sua comunicação e, por consequência, impactando negativamente em sua qualidade de vida.

É importante o entendimento de que os cuidados pessoais incluam usar máscaras e valorizar a comunicação, cuidar voz, da audição e da comunicação!

Raquel Munhoz, CRFa 2-5488
Fonoaudióloga Especialista em Audiologia Clínica pelo Cediau e Responsável Técnica no Núcleo de Audiologia
Título de Especialista em Audiologia pelo CFFa 2079-03

 

 

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